Imagine poder entrar em uma botica no Rio de Janeiro, em pleno século XIX, e comprar “cigarros índios” à base de cannabis para tratar sua asma ou insônia. Imagine a planta sendo cultivada em quintais e usada em rituais religiosos afro-brasileiros com a mesma naturalidade de outras ervas. Essa cena, que hoje parece ficção, foi a realidade do Brasil por séculos.
A história da cannabis em nosso país é uma longa e tortuosa jornada que diz menos sobre a planta em si, e mais sobre as profundas transformações sociais, raciais e políticas do Brasil. A verdade é que a maconha não nasceu marginalizada; ela foi empurrada para as margens.
O “Fumo de Angola”: A Chegada com a Diáspora Africana
A cannabis não é nativa do Brasil. A teoria mais aceita é que ela cruzou o Atlântico nos porões dos navios negreiros. Os africanos escravizados, arrancados de suas terras, trouxeram consigo as sementes da planta, que já era parte de suas culturas para fins medicinais, sociais e espirituais.
Aqui, no solo brasileiro, ela foi rebatizada de “diamba”, “riamba” ou, mais comumente, “pito de pango” e “fumo de Angola”. Para a população escravizada, a planta era um raro alento após dias de trabalho desumano, um elo com sua ancestralidade e uma ferramenta em seus rituais religiosos. Os portugueses, por sua vez, também tinham interesse no cânhamo, a variedade da planta usada para produzir fibras para as cordas e velas de suas caravelas.
Das Senzalas às Boticas: A Cannabis no Império
Durante o século XIX, a cannabis estava relativamente integrada à sociedade. De um lado, seu uso recreativo era associado às classes populares, aos escravizados e libertos. Do outro, a elite médica começava a se interessar por suas propriedades.
A planta era vendida livremente em farmácias e boticas na forma de extratos, tinturas e os “cigarros índios”, recomendados por médicos para uma variedade de males, como asma, bronquite, insônia e dores. Teses foram escritas sobre seu potencial terapêutico nas faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. A cannabis era, ao mesmo tempo, um costume popular e um remédio em estudo.
A Virada: Como a Erva do Povo Virou o “Vício dos Marginais”
A transição do século XIX para o XX marca a grande virada. Com a abolição da escravatura e o crescimento das cidades, a elite brasileira, influenciada por ideias eugenistas e racistas da Europa, passou a ver os costumes da população negra como “primitivos” e “perigosos”.
A perseguição à cannabis se tornou uma forma de controlar essa população. A prática de fumar o “pito de pango” em rodas de samba e capoeira foi associada à vadiagem, à loucura e à criminalidade. Como bem documenta o historiador Jean Marcel Carvalho França, a guerra não era contra a planta, mas contra a cultura negra.
Em 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro criou uma das primeiras leis do mundo a punir o uso da cannabis, proibindo “a venda e o uso do pito do pango” sob pena de multa e prisão para os escravizados. O estigma foi se consolidando, e nas primeiras décadas do século XX, com a pressão de conferências internacionais de higiene e a influência dos EUA, a maconha foi definitivamente jogada na ilegalidade em todo o Brasil.
O Círculo se Fecha: O Lento Retorno à Farmácia
A “Guerra às Drogas”, importada dos EUA a partir dos anos 60 e abraçada pela Ditadura Militar, apenas aprofundou o abismo, solidificando a imagem da maconha como inimiga da sociedade.
O que estamos vivendo no século XXI é um lento e irônico retorno ao passado. Impulsionada pela ciência, que redes cobriu o potencial terapêutico que os médicos do Império já investigavam, e pela coragem de associações de pacientes, a cannabis volta a entrar pelas portas da farmácia. Não mais como um extrato barato em um frasco de boticário, mas como um medicamento de alta tecnologia, regulado pela ANVISA.
A história da cannabis no Brasil é um espelho da nossa própria história. Ela mostra como o status de uma planta pode ser manipulado por interesses de classe e raça. A erva que chegou como alento, virou remédio, foi transformada em crime para controlar os indesejados e, agora, retorna como remédio para quem pode pagar. A planta é a mesma; a sociedade, a lei e os interesses é que nunca pararam de mudar.

Fontes e Referências
- “História da Maconha no Brasil” – Jean Marcel Carvalho França: Obra fundamental do historiador que documenta a introdução da planta no país, seu uso medicinal no século XIX e o processo de criminalização atrelado ao racismo e ao controle social.
- Posturas da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (1830): Documento histórico que contém uma das primeiras leis do mundo a punir o uso da cannabis, direcionada ao “pito do pango” usado pela população negra, evidenciando a origem racial da proibição.
- Teses e Publicações Médicas do Século XIX: Arquivos de faculdades de medicina, como a da Bahia, que contêm trabalhos de época sobre as aplicações terapêuticas da Cannabis Indica, como em tinturas e cigarros para asma, comprovando seu status de remédio no período.
- Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) da ANVISA: Documentos oficiais que regulamentam o acesso à cannabis medicinal no Brasil contemporâneo, como a RDC 660/2022, que rege a importação e a venda de produtos em farmácias.