Você já parou para pensar na estranha ironia da nossa sociedade? Celebramos uma substância que destrói e condenamos uma planta que cura. Essa não é uma briga moral, mas um fato que a gente precisa encarar.
De um lado, temos o álcool. Ele se tornou o companheiro de todas as horas: do brinde de Ano-Novo ao happy hour da sexta-feira. Está tão enraizado na nossa cultura que questioná-lo parece estranho. Ele simboliza festas, celebrações e a promessa de esquecer os problemas.
Mas a ciência nos mostra a outra face dessa tradição. Em 2019, 2,6 milhões de mortes no mundo foram atribuídas ao consumo de álcool. Isso representa quase 5% de todas as mortes globais. Para ser mais claro, o álcool mata mais de 1,6 milhão de pessoas por ano por doenças como câncer e problemas cardiovasculares. Ele também é responsável por quase 300 mil mortes por doenças transmissíveis, já que enfraquece o sistema imunológico.
Além disso, estima-se que 400 milhões de pessoas sofrem com transtornos ligados ao álcool, e a dependência atinge cerca de 209 milhões delas. Na Europa, a situação é alarmante: o álcool é responsável por 430 mil mortes anuais, e mesmo assim, os avisos de risco de câncer, semelhantes aos de cigarro, são ignorados pelas indústrias e governos. Nos Estados Unidos, o Surgeon General (equivalente ao Secretário de Saúde) classificou o álcool como a terceira principal causa evitável de câncer, com quase 100 mil casos e 20 mil mortes por ano.
Mesmo com todas essas evidências, ele é romantizado. É o “vilão” que a gente escolheu amar.
Do outro lado, temos a cannabis. Por anos, ela foi empurrada para o canto da sociedade, vista como algo perigoso e imoral. No Brasil, sua criminalização teve raízes no racismo e no controle social, marginalizando as comunidades que a usavam.
Mas a história e a ciência contam uma verdade diferente. A cannabis não é um “acaso”. Ela foi cultivada por milênios como remédio, fibra e alimento. Seus registros mais antigos datam de 2.700 a.C. na China, onde era usada para tratar dores e malária. A razão por trás de sua eficácia é fascinante: nosso próprio corpo possui um sistema endocanabinoide, com receptores (CB1 e CB2) que regulam o sono, a dor, o apetite e o humor. Compostos da planta, como o THC e o CBD, se encaixam nesse sistema como uma chave na fechadura, criando uma interação natural e não invasiva.
No Brasil, o uso medicinal está crescendo de forma exponencial. Em 2023, mais de 430 mil pacientes estavam em tratamento. Em 2024, esse número saltou para 672 mil, e os medicamentos já chegam a 80% dos municípios brasileiros. Muitos desses pacientes são crianças com epilepsias graves, cujas vidas foram transformadas graças ao ativismo de mães que se tornaram heroínas.
A grande questão, então, não está nas substâncias, mas em nós. Por que aceitamos o que comprovadamente nos mata e criminalizamos o que pode, comprovadamente, nos curar? A hipocrisia é real e nos força a refletir.
Não se trata de substituir um vício por outro, mas de repensar nossos valores. A gente precisa deixar de lado o moralismo e abraçar a ciência e a empatia. Nossas escolhas sociais, econômicas e políticas deveriam ser baseadas em dados, não em preconceitos. É hora de abrir os olhos.
Referências Teóricas
1. World Health Organization (WHO). Global status report on alcohol and health 2018. Genebra: WHO; 2018.
2. World Health Organization (WHO). Global status report on alcohol and health 2014. Genebra: WHO; 2014.
3. World Health Organization (WHO). Fact Sheets: Alcohol. Disponível em: [https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/alcohol].
4. Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Surgeon General’s Report on Alcohol, Drugs, and Health. Rockville, MD: U.S. Department of Health and Human Services; 2016.
5. ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Relatórios Anuais de Produtos de Cannabis. Brasília, DF: ANVISA. (Dados de 2023-2024).
6. Di Marzo, V., & De Petrocellis, L. (2015). The Endocannabinoid System and its modulation by phytocannabinoids. European Journal of Pharmacology, 764, 477-486.
7. Mechoulam, R. (1986). The search for the active constituents of the cannabis plant. Tetrahedron, 42(6), 1851-1859.
8. Russo, E. B. (2008). Cannabis and the endocannabinoid system: a journey through time. Journal of Cannabis Therapeutics, 4(3-4), 1-28.